domingo, 17 de janeiro de 2010

ontem...

E...

eu estava completamente feliz naquela tarde chuvosa do verão de 2010. Havia passado por muitas coisas. Tantas, aliás, que achava que nada era capaz de me impedir. Era uma sensação magnífica. Sentia-me forte. Sentia-me bem.
As palavras eram soltas e enviadas pela internet. Partiam diretamente de meu coração, como sempre, até a pessoa que o tinha - tecnicamente, elas não tinham muito trabalho para chegar até lá. Mas, senti bastante necessidade de registrar aqui aquele momento, pois foi algo encantadoramente perfeito para mim.
Falávamos sobre muitas coisas, como sempre. Não me recordo exatamente os motivos que nos levaram então a conversar sobre assunto tão delicado. O fato foi que eu comecei a falar sobre reencarnação.
Levei um baque ao descobrir que a pessoa nem mesmo acreditava em DEUS.Isso me assustou um pouco, confesso. Meu coração bateu rapidamente de medo.Se fui preconceituoso? Não creio. Apenas fiquei surpreso por saber que uma pessoa que amava tanto era diferente de mim em tal aspecto.
Conversamos abertamente sobre todos esses assuntos e, naquele momento, não me senti apenas um namorado...mas senti alguém diferente, especial.
Eu senti receio, confesso. Sempre que converso sobre tais assuntos com outras pessoas, é incrível, mas todas elas pensam que quando digo minha opinião eu estou querendo de alguma forma persuadi-las a crer no que creio...ridículo. Se há algo que eu respeito nas pessoas é sua crença. E adoro diferenças, pena que muitos não sabem respeitá-las.
Foi uma tarde inesquecível...aliás, desde que iniciei esse namoro, o que mais tenho tido são momentos inesquecíveis. ^^





sábado, 16 de janeiro de 2010

Conto...

Ana

Ana fugiu de casa. Ela era livre agora - era o que ela achava, era o que ela sentia.
Rodou pelas ruas da cidade. Andou sem rumo, sem paradeiro, estava ela desaparecida. As horas se passaram, e depois disso os dias. Ela estava livre, era o que contava para si mesma. Ela precisava se convencer disso. Ela estava livre...tinha desaparecido para o mundo. Aliás, o único mundo para o qual ela existia naquele momento era o dela mesma. E, para Ana, o único mundo que existia para ela era esse – ela precisava acreditar nisso.

As ruas começaram então, a ficar escuras. A cidade, pela noite, era bem diferente da cidade a qual Ana estava acostumada a ver. Era bem diferente de seu lar...e o choque fora inevitável. Sim, ela tinha um lar. Ao menos tivera um certa vez.

Ana agora havia percebido que de fato havia desaparecido. Onde estariam seus pais? E seus amigos? Será que ela de fato teve algum amigo? Sim, ela teve. Ela ainda os tinha. Apenas tinha esquecido isso naquele momento.

Ana agora havia percebido o quanto a falta podia gerar valorização, e o quanto a não-valorização podia gerar falta. Falta... Ela sentia falta do mundo, e o mundo sentia falta de Ana.

Ana só queria sentir-se livre... Mas já não sabia mais o que era liberdade. Ela queria voltar, porém percebeu que havia esquecido o caminho de volta, do mesmo modo que havia esquecido a si mesma.

Correu desesperadamente pelas ruas. Havia pessoas bebendo e rindo na madrugada. Prostitutas a encararam. Ana sentiu medo. Correu para o outro caminho, mas percebeu que não adiantava correr.

Quanto tempo havia passado? Ana já não sabia. Ela havia perdido a noção do tempo, havia perdido a noção de tudo... Menos da falta. Ana queria voltar...

E o tempo foi passando, passando, e Ana perdeu a coragem. Se voltasse, todos a julgariam. Se voltasse, ela só seria novamente a mesma Ana. Ela não queria mais viver naquele tribunal. Seus pais não a compreenderiam, e seus amigos a abandonariam na primeira oportunidade. Ana ainda queria voltar, mas sentiu medo. Sentou-se na calçada. Resolveu ficar. Isso era o mais fácil a fazer.

Eu a conheci enquanto saía do escritório. Ela me pediu esmola. Já era velha, a Ana. Dei dinheiro a ela. Ela não falava muito. Mas, certo dia me contou sua história.

- Não tem curiosidade pra saber onde eles estão? Digo, seus pais...ou irmãos. Seus familiares.- perguntei após levar para ela algumas torradas do escritório.

Ela apenas olhou para a rua, para as pessoas caminhando, como se tentasse imaginar como e onde sua família estava naquele momento. Seus pais já deveriam estar mortos. Já era velha, a Ana...

- Não.-disse-me ela após o longo silêncio. – Depois que saí de casa, depois que tentei ser livre, acabei perdendo algo muito mais importante e só me dei conta disso nos últimos anos. Acabei perdendo a mim mesma.

Eu refleti sobre aquilo. Venho refletindo desde então. E Ana levantou-se, caminhou e desapareceu. Já há 4 anos que não a vejo nas proximidades. Nem em lugar algum que visitei. Ana desapareceu de novo. Talvez esteja em outra cidade, ou em outro bairro distante. Talvez tenha morrido. Ou talvez tenha encontrado alguém que a conhecia. Eu nunca soube o que houve com Ana. Só de uma coisa eu tinha certeza: Ana estava arrependida. Espero que, em seu próprio sumiço, tenha esbarrado consigo mesma em alguma esquina e tido uma longa conversa...Ana precisava se compreender.